Asociacion Cultural de Capoeira Angola

Asociacion Cultural de Capoeira Angola

Recuerda

 Logo_ponto_de_memoria                desaparecidos            Stop_Sexual_Tourism              unase                       Contra_la_violencia_de_genero           Contra la Violencia de Género                                           unifem_logo                                       
contra_o_racismo
Cantos, danças e toques: As três rodas mágicas que ligam o africano ao afrodescendente -Juarez Xavier
Viernes, 12 de Junio de 2009 17:24

 A oralidade é um fator decisivo nas civilizações africanas. Ela é a via condutora de todo o conhecimento ancestral passado de geração a geração. As palavras, os versos, os poemas que guardam a história, os mitos e ritos africanos são preservados pelos arquivos orais dos velhos e velhas. Mais do que o desenvolvimento da memória, a palavra é o veículo da verdade sagrada africana – verificável no mundo real - legada pelos antigos. Foi à palavra que preservou viva a memória coletiva africana.

Os primeiros africanos que chegaram às Américas mobilizaram suas memórias coletivas para reinventar uma pequena África deste lado do oceano. Os palmarinos chamavam o quilombo de “Janga Angola”, “Pequena Angola”. O tradicionalista africano, Hampaté Bâ, dizia que para os povos da África a palavra tem duas dimensões: uma sagrada e outra religiosa. A sagrada é o sentido de verdade contido na palavra, que é a verdade ancestral dada pelo ser supremo para os seres humanos; a dimensão religiosa é a ligação que os africanos têm com seus ancestrais – ao lembrá-los, eles revivem nos atos dos descendentes e dão impulso às suas realizações.

Com os ancestrais na cabeça e no coração, os descendentes constroem cenários favoráveis aos seus propósitos. Para o africano a mentira é uma doença, pois constrói cenários mentirosos e inconsistentes. Essa roda das palavras – oratura – reinventou uma nova África nas Américas, que se reinventa a cada dia, nas três rodas místicas e culturais brincadas pelos afrodescendentes brasileiros: as rodas de candomblé, de capoeira e de samba. O candomblé é a forma da expressão que as religiões de matrizes africanas adotaram em alguns locais, fora do continente de origem. Os três grandes grupos humanos que aportaram em terras americanas – bantu, nagô e jejê - adotaram esse sistema de transcendência – relação com os ancestrais mitológicos e históricos sagrados - e imanência – formas ritualísticas dessa relação, por meio dos cantos, danças e toques.

Os ancestrais míticos e de osso – osso do mesmo osso – são invocados para dançar e despejar forças místicas – axé - sobre seus filhos e filhas. Na capoeira, os africanos aprenderam a arte da valentia na vida. Mais do que um jogo de roda, a capoeira é um jogo na “roda da vida”, com ataque, ginga, golpes traumáticos, desequilibrantes e de construção das identidades negras. A roda de samba é um pouco da síntese dessas rodas anteriores. O samba é um candomblé profano, onde são lembrados os ancestrais míticos do gênero. O samba é a capoeira do sambista, que desafia tudo e todos para criar sua referência cultural, em versos, prosas e música.

Essas três rodas têm um núcleo consistente em comum: nelas juntam-se sobre a base da oralidade o canto, a dança e o toque. O canto faz parte do universo diário dos povos africanos. O canto está na adoração da ancestralidade, no trabalho do dia-a-dia, na preparação da guerra e nas delícias do amor. Mais do que pontuar momentos efêmeros, o canto para o africano é lembrar o passado, fazer o presente e inventar o futuro.  O canto constrói cenários, imagens personagens e histórias.

Nele, não se joga palavra fora. Cada palavra, frase e rima é uma solução de vida. É uma proposição! O afrodescendente não vive sem sua linguagem corporal. As mãos falam; os pés gritam, os olhos murmuram; os ouvidos cochicham, e a língua enuncia a palavra - melhor na boca do filho do que na do pai. Enquanto para o Ocidente o corpo era a prisão da alma, para o africano o corpo é o espaço de manifestação da alma. O som entra pela carne, e a faz vibrar. A alma do africano dança, como dançam seus orixás e os seus ancestrais, dança a natureza, dança o cosmo.

O corpo inerte é o corpo morto. A vida e a morte dançam no ritmo do universo africano. Já os tambores falam! Quem já esteve perto de uma orquestra de tocadores de candomblé - rum, rumpi, lê, gan, xequere -, quem já esteve perto de uma bateria de escola de samba e quem já esteve perto do pandeiro, atabaque, reco-reco e berimbau de uma roda de capoeira, sabe o significado do toque musical para os afrodescendentes. São nesses gestos, fazeres e cantares que a África vive e revive em nós. Com pedaços intactos da presença africana; outros, misturados no cotidiano do negro; alguns, inventados nas oficinas dos saberes populares: os cantos, danças e toques africanos soam e vibram no cotidiano dos afrodescendentes brasileiros, por mais distantes que pareçam. Axé!

 

 Juarez Xavier é Jornalista; doutor em comunicação e cultura pela Universidade de S. Paulo; diretor do curso de Comunicação Social da Universidade Cidade de S. Paulo; pesquisador do universo afrodescendente; Militante da Unegro; Olosun do Ile Ase Osun Muywa; Asogun do Ile Ase Iya Mi Agba.

 
 
Joomla 1.5 Templates by Joomlashack